Eugénio Fonseca, um homem de coração puro e generoso
In memoriam
No contexto das muitas homenagens ao Eugénio Fonseca, por ocasião da sua morte, alguém que o conhecia bem, disse: “Partiu à nossa frente um homem bom que sorria com o olhar de uma criança”. Muito se tem escrito sobre a sua pessoa e a sua imensa atividade em favor dos mais pobres. Com muito interesse tenho acompanhado os ricos depoimentos sobre este homem profundamente empenhado na denúncia e combate à pobreza, na defesa da promoção da dignidade da pessoa humana, quer enquanto presidente da Cáritas da diocese de Setúbal e da Cáritas nacional, quer em movimentos formais e informais, quer denunciando e reivindicando sempre em favor dos pobres. Na sociedade, em geral, é assim: quando a morte os leva é que nos lembramos deles e da sua obra.
Sim, o Eugénio, nas horas mais tranquilas, gostava de sorrir, mas sem nunca esconder a sua “inconformidade com a miséria e a pobreza”. Ainda muito jovem, o seu coração e a sua mente começaram a estar cheios da necessidade de se entregar às questões de carácter social. Desde a Escola Secundária do Bocage, onde começou o nosso conhecimento, testemunhei quanto ele respirava intranquilidade com as situações de pobreza, com a ofensa à dignidade das pessoas, o desprezo por aqueles que sofriam o esquecimento da sociedade. Sim, o Eugénio gostava de sorrir, mas sobretudo quando pulavam na sua mente formas e projetos, às vezes ideais, em busca de caminhos, pessoas e meios que tornassem possível envolver dioceses e paróquias na resolução das situações de pobreza. A pouca ou deficiente organização da caridade em algumas dioceses era para ele motivo de grande preocupação.
Nalgumas vezes, o Eugénio, em conversa de amigos que sabiam ouvir-se, dialogar e enriquecer-se, perdia-se a desfilar sonhos que lhe surgiam como formas de amadurecer iniciativas que, muitas vezes, se tornavam realidade.
“Um homem bom que sorria com o olhar de uma criança.”
O seu mestre foi D. Manuel Martins, bispo de Setúbal. Cedo criou uma profunda relação pessoal com o seu Bispo e soube receber dele uma espiritualidade incarnada. Como era interessante ouvir o Eugénio falar da forma singular como o seu Bispo criava, quase diariamente, oportunidades de se encontrar com pobres ou pessoas em situação difícil! O Eugénio teve em D. Manuel Martins um pai e um mestre que ele soube compreender e assumir como modelo de intervenção social.
O Eugénio também teve tempos de deserto, de alma profundamente dilacerada, de incompreensão e esquecimento. Essa situação dolorosa soube enfrentá-la com partilha, sem desfalecimento nem desprezo por ninguém, porque tinha um coração puro e generoso.
Em síntese, o Eugénio era um homem de fé profunda, cada vez mais esclarecida pela sua dedicação ao estudo dos documentos da Igreja, que manejava com mestria e partilhava de forma organizada, recorrendo aos mais diversos meios de comunicação; era um homem preocupado com os pobres, criador de formas de intervenção social para restituir a dignidade aos esquecidos da sociedade; aberto ao diálogo para criar pontes favoráveis ao incremento de projetos e ideias sempre dirigidas aos pobres; profundo conhecedor e dinamizador do Evangelho e da Doutrina Social da Igreja.
Naquele dia, durante as poucas horas de merecida fruição dos encantos da sua maravilhosa praia da Figueirinha, partiu para a Casa do Pai, a quem soube dar o seu contributo inestimável para o crescimento do seu Reino, com todos e por causa dos mais desprezados da sociedade.
Pe. Domingos
