Ibrahima: «A única família que tenho é aqui»
Ibrahima chegou a Beja há cerca de cinco anos, no fim de uma longa viagem que começou no Senegal e atravessou a Mauritânia, Marrocos, Espanha e França até chegar a Portugal.
Trouxe consigo pouco mais do que a vontade de recomeçar e uma certeza que hoje repete sem hesitar: «Tudo corre bem, graças a Deus e à gente da Cáritas.»
Quando fala do seu percurso, não esconde que os primeiros tempos foram difíceis. «Passei por momentos muito difíceis», resume. Longe de casa, sem dominar a língua e sem uma rede de apoio, teve de reconstruir tudo a partir do zero, num país que ainda não conhecia.
O apoio do CLAIM
O primeiro contacto com a Cáritas aconteceu através de um amigo, que lhe falava sempre de alguém que trabalhava na instituição. Foi assim que Ibrahima chegou ao CLAIM — Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes, onde encontrou apoio para tratar da sua situação documental e dar os primeiros passos para se regularizar em Portugal.
Mais importante ainda, encontrou quem o ouvisse. «Encontrei gente boa, gente que me ouvia, que sabia o que eu queria e que me ajudava», recorda, ao lembrar-se do dia em que entrou pela primeira vez por aquela porta.
A pé, todos os dias
Nessa fase, Ibrahima tinha um objetivo muito claro: terminar o curso de português. Recusava-se a partir para outra cidade à procura de trabalho antes de concluir a escola.
Para isso, percorria todos os dias o caminho entre São Brissos, onde morava, e Beja, mesmo quando chovia, num total de 18 km a pé por dia. «Ia a pé, todo o dia», conta, sem drama, como quem descreve apenas mais um passo do percurso.
Houve mesmo uma altura em que chegou a não ter onde dormir. Foi então que enviou uma mensagem à Cáritas e essa mensagem voltou a abrir-lhe uma porta.
A Comunidade de Inserção, uma nova família
A partir daí, o caminho fez-se com acompanhamento próximo. Ibrahima integrou a Comunidade de Inserção, onde permaneceu um ano e três meses. Foi um tempo decisivo.
«A Comunidade ajudou-me muito», afirma, sublinhando o apoio que recebeu não só na procura de trabalho, mas também no dia a dia, junto de pessoas que se tornaram, para ele, verdadeira família. Mesmo depois de sair, continua a identificar esta casa como o seu grande suporte e elo de ligação entre colegas e amigos.
«Fiquei aqui com grandes amigos que venho visitar sempre que posso.»
Um novo começo através do trabalho
O passo seguinte deu-se através do Programa Incorpora, da Fundação «La Caixa», que acompanha pessoas em processo de inserção na sua ligação ao mercado de trabalho. Com esse apoio, Ibrahima conseguiu emprego.
Hoje é colaborador no NERBE — Núcleo Empresarial da Região de Beja, onde aplica competências de pintura, construção, jardinagem e eletricidade, muitas delas trazidas já do seu país, onde teve formação militar e de engenharia. «Gosto muito do trabalho. A vida é trabalho», diz, com um sorriso.
Atualmente, tem o seu próprio espaço e uma vida orientada. Mas quando fala do que a Cáritas representa, a resposta é sempre a mesma, e dita sem hesitação: «A única família que tenho em Portugal é aqui, na Cáritas.»
É também por isso que, quando encontra alguém a atravessar dificuldades, não hesita em mostrar-lhe o caminho, o mesmo que um dia lhe estenderam a ele. Tornou-se, à sua maneira, uma ponte entre quem chega e a instituição que o acolheu.
Um sonho para o futuro
Olhando para o futuro, Ibrahima tem um sonho simples e profundo: reunir a sua família.
«Quero trazer a minha família para Portugal.»
Nas suas palavras percebe-se que é esse o horizonte que dá sentido a todo o esforço.
O percurso de Ibrahima é, no fundo, a história de alguém que nunca desistiu e de uma instituição que caminhou ao seu lado em cada etapa. Do CLAIM à Comunidade de Inserção, do Programa Incorpora ao emprego que hoje tem, cada resposta foi um degrau. E, conhecendo a sua determinação, é impossível não acreditar que o próximo passo, o reencontro com a família também há de acontecer.
Uma carta do Ibrahima
Ibrahima, cujo testemunho partilhámos recentemente, quis deixar-nos estas palavras. Partilhamo-las com a sua autorização.
O meu nome é Ibrahima.
Hoje quero expressar a minha mais profunda gratidão à Cáritas de Beja e a todas as pessoas que fizeram parte da minha caminhada.
Durante mais de um ano, tive a oportunidade de viver na Cáritas de Beja através do programa Incorpora. Foi um período muito importante da minha vida. Passei por momentos muito difíceis, mas nunca estive sozinho. Sempre encontrei pessoas que me ouviram, me apoiaram, me incentivaram e acreditaram em mim.
Quero agradecer, do fundo do meu coração, à direção, aos doutores, aos monitores, aos educadores e a todos os colaboradores da Cáritas. Com vocês aprendi muito. Ensinaram-me valores, deram-me força para continuar e ajudaram-me a recuperar a confiança em mim mesmo. Graças ao vosso apoio e, acima de tudo, graças a Deus, hoje encontro-me numa situação muito melhor e tenho esperança no meu futuro.
Quero também agradecer a todos os meus colegas, com quem partilhei momentos de aprendizagem, dificuldades e alegria. Cada um de vocês fez parte desta etapa tão importante da minha vida.
Não posso esquecer as senhoras da cozinha, que todos os dias prepararam as refeições com carinho e dedicação. Muito obrigado por todo o cuidado, pela vossa bondade e por me alimentarem durante todo este tempo. Nunca esquecerei o vosso gesto de amor e generosidade.
Agradeço igualmente a todas as pessoas que me acolheram, ajudaram e acompanharam ao longo desta caminhada. Cada gesto de apoio fez a diferença na minha vida.
As palavras não são suficientes para expressar toda a gratidão que sinto. Levarei para sempre a Cáritas de Beja no meu coração. Vocês não foram apenas uma instituição para mim; foram uma verdadeira família.
Peço a Deus que vos abençoe, vos proteja e vos recompense por todo o bem que fazem às pessoas que mais precisam.
Muito obrigado por tudo. Nunca vos esquecerei.
Com profunda gratidão e respeito,
Ibrahima. 🙏🏾🙏🏾🙏🏾❤️❤️❤️❤️❤️
