Testemunho Isaurindo Oliveira
Uma caneta, duas mãos, uma vida inteira para contar
Há encontros que não estavam nos planos de ninguém e que, ainda assim, mudam tudo.
Quando o Isaurindo Oliveira começou a fazer voluntariado na Cáritas Diocesana de Beja, visitando idosos que passam grande parte dos seus dias na companhia do silêncio, não imaginava que uma dessas visitas se transformaria num livro. Do outro lado estava o Sr. António Piriquito — um homem com uma vida inteira guardada dentro de si e um gosto antigo, quase esquecido, pela escrita.
Bastou alguém disposto a ouvir.
Nas conversas que foram nascendo, visita após visita, o Isaurindo percebeu que aquele gosto pela palavra não era um detalhe: era uma porta. E, em vez de a deixar fechada, decidiu abri-la. Juntos começaram a escrever. Primeiro uma memória, depois um verso, depois outro. Sem pressa, sem obrigação, apenas pelo prazer de dar forma àquilo que uma vida acumula e que tantas vezes fica por dizer. Assim nasceu Memórias de uma Vida — um livro de poemas que os dois esperam, um dia, ver publicado.
O que o Sr. António Piriquito recebeu
Para o Sr. António, este voluntariado foi muito mais do que companhia. Foi a redescoberta de que a sua história importa, de que a sua voz merece ser ouvida e registada. Envelhecer traz, muitas vezes, um sentimento silencioso de que já não se tem nada a oferecer ao mundo. Escrever este livro disse-lhe exatamente o contrário: que a experiência de uma vida é um bem precioso, que a memória é um legado e que ainda há tanto para criar.
Há um propósito renovado em quem se sente útil. Há dignidade em quem é escutado. E há uma alegria muito particular em quem descobre que os seus dias voltaram a ter um projeto.
O que o Isaurindo recebeu
Seria fácil pensar que, nesta relação, é o voluntário quem dá e o utente quem recebe. Mas quem faz voluntariado sabe que a verdade é bem mais generosa do que isso.
O Isaurindo levou tempo, paciência e disponibilidade. E trouxe de volta lições que nenhum manual ensina: a sabedoria de quem já viveu muito, a perspetiva de quem sabe distinguir o que é essencial do que é passageiro, o valor de uma conversa sem pressa num mundo que anda sempre a correr. Trouxe também a satisfação profunda de ter feito a diferença na vida de alguém, não com grandes gestos, mas com presença, com atenção e escuta.
O voluntariado tem esta beleza rara: quem dá é sempre o primeiro a receber.
Para ser voluntário não é preciso ter tempo a mais nem talentos extraordinários. É preciso, sobretudo, estar disponível para o outro e acreditar que ninguém tem de enfrentar a solidão, a doença ou o envelhecimento sozinho.
Às vezes, o voluntariado é ajudar a escrever um livro. Outras vezes, é apenas estar. Segurar uma mão, partilhar um café, ouvir a mesma história pela terceira vez com o mesmo carinho da primeira. É nestes pequenos gestos que se constrói uma comunidade mais humana — aquela em que ninguém é deixado para trás.
O Isaurindo e o Sr. António mostram-nos que, quando duas gerações se encontram sobre uma mesma folha de papel, o que fica escrito não é só um livro. É a prova de que cada vida tem valor, de que cada história merece ser contada e de que há sempre alguém disposto a ajudar a contá-la.
Quer fazer parte desta história? Junte-se ao Voluntariado em Movimento da Cáritas Diocesana de Beja.
Link de inscrição: https://forms.gle/oi7bS9RQj5gEdXQ46
Apoie a nossa causa: MBWay 961 460 042